Assim como a doença continua a ceifar mais vidas, a violência doméstica ligada ao isolamento está fazendo mais vítimas em todos os lugares.

A atual pandemia tornou a violência entre casais mais comum, e muitas vezes mais grave.
A covid-19 exacerbou a violência doméstica.
O lockdown deu mais ferramentas e oportunidades aos abusadores para controlar suas vítimas.
À medida que a pandemia se arrastava, os abusos aumentavam.
Assim como a doença continua a ceifar mais vidas, a violência doméstica ligada ao isolamento está fazendo mais vítimas em todos os lugares.
Infelizmente, o abuso doméstico e o feminicídio ainda estão nas manchetes no mundo todo.
Essas questões são globais.
No Brasil, os casos de feminicídios aumentaram em mais de 22% em 12 estados desde o início da pandemia: uma mulher é assassinada cada 9 horas no Brasil.
Diante de um quadro tão sombrio e de tantas tragédias, qual deve ser o papel da empresa?
Pode agir de forma concreta?
Deve intervir se conseguir?
Alguns podem afirmar que se trata de um assunto privado e que não envolve a empresa ou que a companhia não tem possibilidades de agir.
Mas o fato é que o abuso doméstico afeta as empresas e a economia de várias maneiras.
De acordo com um estudo realizado na França em 2019, que entrevistou 6.000 funcionários, 20% dos entrevistados declararam estar sofrendo ou ter sofrido violência doméstica com consequências na vida profissional.
O local de trabalho pode se tornar, para algumas vítimas, um refúgio onde elas se sintam relativamente protegidas, mesmo que a violência nem sempre para na entrada do escritório, o parceiro abusivo podendo ligar ou até visitar a empresa.
E se o local de trabalho fosse realmente um espaço onde as vítimas possam encontrar respostas para seus problemas?
Hoje, algumas grandes empresas na França, como Orange ou PSA, têm políticas de RH para apoiar os funcionários vítimas de violência doméstica.
Em algumas empresas, o apoio às vítimas faz parte de acordos de igualdade profissional e existem sessões de informação, possibilidades de transferir as vítimas para outro escritório ou até de conceder licenças excepcionais.
As iniciativas de Responsabilidade Social Corporativa também desempenham um papel na prevenção da violência doméstica e na conscientização dos funcionários.
Às vezes, medidas muito simples têm impacto enorme.
Por exemplo, a exposição de panfletos de conscientização sobre violência doméstica em salas de descanso ou nos escritórios, provou ser altamente eficaz e pode ser implementada em qualquer empresa.
No entanto, as empresas não devem, de forma alguma, substituir as ONGs de violência doméstica se um caso fosse relatado entre seus funcionários.
Colegas e gerentes também são extremamente importantes, mesmo que se sintam pouco preparados para ajudar.
A proximidade permite detectar situações de risco e eles podem ser as primeiras testemunhas das dificuldades domésticas do colega.
Lesões físicas são o sinal mais óbvio, mas ausências repetidas, irritabilidade repentina, discrição súbita também podem ser sinais de abusos.
Claro, é preciso estar atento e respeitar a privacidade dos funcionários.
O assunto é complexo e deve ser tratado com muita discrição e cuidado.
Mas é importante que a empresa dê passos positivos no sentido de aumentar a conscientização sobre o abuso doméstico e a violência e, se puder, ajude a acabar com isso.
Fonte:
Anne-Laure Guihéneuf – chefe da Agence Déclic (agência de consultoria de CSR).
André Sobczak – professor da Audencia Business School.
Época Negócios.