Muitos profissionais lutam diariamente contra o perfeccionismo, o excesso de trabalho e as falsas urgências, segundo a terapeuta e escritora Israa Nasis

Em seu trabalho como terapeuta em Nova York, Israa Nasir percebeu um determinado padrão que se repetia entre pacientes dos 35 aos 47 anos: muitos deles lutam contra o perfeccionismo, as falsas urgências e o excesso de trabalho, enquanto tentam reencontrar sua identidade e seu propósito.
“Nessa fase, muitas pessoas começam a questionar profundamente o significado da sua vida e a relevância do seu trabalho. Elas percebem que vivem em um ciclo de produtividade tóxica, movidas por um desejo de serem aceitas e validadas pelos seus pares, mesmo que para isso precisem sacrificar sua saúde física e mental”, afirma a especialista.
Segundo Israa, que acaba de lançar um livro sobre o tema “Toxic Productivity: reclaim your time and emotional energy in a world that always demands more” – Produtividade tóxica: recupere seu tempo e energia emocional em um mundo que sempre exige mais, os padrões tóxicos de comportamento têm sua origem na visão distorcida que temos de nós mesmos.
“Muita gente passa a vida toda tentando alcançar metas que foram determinadas por outras pessoas e não combinam com seus valores, sua visão de mundo. Isso as deixa frustradas e com a sensação de que não são boas o bastante”, diz Israa, que também é fundadora da WellGuide, uma comunidade digital para educação e conscientização em saúde mental.
Antes que alguém diga que a autora é contra a produtividade, ela já se posiciona.
“Produtividade é algo bom para a sociedade e essencial para as nossas vidas. Mas é preciso que seja uma produtividade saudável. Isso acontece, afirma, quando o que você faz está alinhado aos seus valores.
Uma das razões pelas quais a produtividade tóxica é tão exaustiva é que ela nos leva a ignorar ou não priorizar coisas que realmente importam para nós.
Em contraste, a produtividade guiada por valores é sustentável precisamente porque não está ligada a nenhum marco imaginário, mas sim a um senso mais amplo de propósito em nossas vidas.
*Confira os 07 passos para atingir a produtividade saudável, segundo Israa Nasir.
Pare de tentar cumprir as metas dos outros
Uma paciente cuja ideia de sucesso estava ligada a cumprir os prazos estipulados pela sociedade. Tudo tinha que acontecer em um momento específico de sua vida: terminar os estudos, fazer pós-graduação, subir na carreira, casar, ter filhos, comprar propriedades e viajar para lugares dos sonhos. Aos 39 anos, Maya sentia que havia ficado para trás porque ainda era solteira, estava alugando um imóvel e se sentia presa em seu trabalho. Era difícil para ela apreciar seus próprios esforços e realizações, e seu auto julgamento a mantinha em um estado constante de sobrecarga. Não é incomum usar as expectativas da sociedade como uma régua para medir seu próprio sucesso. No entanto, isso desconecta você de seus valores, o que leva a atitudes tóxicas.
Conecte-se com seus valores pessoais
Mas como saber quais são seus valores? Segundo a terapeuta, valores são crenças centrais. São princípios sob os quais você opera nesse mundo. Exemplos disso são integridade, empatia, coragem, vontade de servir a um propósito maior ou de atingir um crescimento interno. Quando fazemos coisas que estão alinhadas com nosso propósito, experimentamos uma realização profunda que naturalmente sustenta nossos esforços e previne o esgotamento. Isso permite que você saia da mentalidade de produtividade tóxica e seja mais engajado, mais presente e mais intencional com o uso do seu tempo e energia.
Mantenha-se no presente
Quando o paciente está lutando contra a produtividade tóxica, sua mente e seu corpo nunca estão no mesmo lugar. Você pode estar executando uma tarefa, mas já está pensando na próxima coisa que tem que fazer, na próxima palestra que vai assistir, no próximo evento de networking que poderia participar. Sua mente está no futuro, mas seu corpo está aqui. Também é possível que esteja pensando em todas as oportunidades que perdeu no passado. O arrependimento faz com que seu corpo fique no presente, mas a mente vá para o passado. E, quando nunca estamos realmente completos, vivemos nossas vidas no piloto automático.
Saia do estado de reação
As pessoas estão sempre reagindo: aos e-mails, às notificações, às mensagens no WhatsApp. Passamos tanto tempo nisso que não sobra tempo para pensar no que realmente queremos fazer. Vivemos com uma falsa sensação de urgência, que nos diz que o tempo é escasso, as oportunidades são limitadas e que não vamos conseguir o que queremos. Não dá para mudar esse modo de agir de um dia para o outro. É preciso ir aos poucos, fazer mudanças incrementais na maneira como trabalhamos, descansamos e vivemos os relacionamentos.
Pratique o alinhamento
Para isso, é preciso criar o hábito de se questionar: Por que estou fazendo isso? Preciso mesmo cumprir essa tarefa? Quem sofre com a produtividade tóxica, fala e costuma dizer sim para tudo, e depois sofre para encaixar aquilo no tempo e energia que tem para despender. Depois de fazer as perguntas, é preciso estabelecer limites claros. Uma limitação apropriada e equilibrada é dizer às pessoas: não consigo responder e-mails depois das 19h, por exemplo. Se isso parece difícil, pense em quais serão as consequências de dizer não. Porque, na mentalidade de produtividade tóxica, as pessoas superestimam o impacto de não estarem disponíveis o tempo todo e absorvam uma urgência que é dos outros, não sua.
Abrace a ideia que é medíocre em algumas coisas
É importante aceitar que seremos medíocres em algumas áreas da vida, até mesmo para poder ser incríveis em outras. Estabeleça um ponto limite para determinada tarefa. Após esse ponto, o trabalho está encerrado e você se liberta dele. Quantas pessoas refazem 20 vezes um relatório importante, ou mesmo um e-mail, antes de enviá-lo? Esse é um padrão tóxico. Querer ser perfeito em tudo, gera uma sobrecarga cognitiva, uma pressão sobre o sistema de processamento do nosso cérebro. E pessoas cronicamente sobrecarregadas veem sua produtividade cair com o tempo.
Cuide-se durante o trabalho, não só depois dele
Cuidar de você mesmo muitas vezes é visto como o oposto da produtividade. Ou você trabalha duro, vivendo para o trabalho e só indo dormir quando não aguenta mais, ou não dá a mínima para a empresa, tirando folgas e férias toda vez que tem chance. Para muita gente, só existem esses dois extremos. Mas, na verdade, o trabalho e o ócio estão profundamente conectados, e um só é possível com a ajuda do outro. As pessoas dizem que vão se cuidar depois que tiverem concluído todas as tarefas, e nunca antes disso. E daí ficam doentes, ou extremamente infelizes, e acabam pedindo demissão. A solução, fala, é pensar no descanso com um dos hábitos que geram produtividade. A pausa faz parte do trabalho. O descanso pode acontecer durante minutos em pontos estratégicos da rotina diária. E o cuidado com você mesmo acontece o tempo todo, não só depois do trabalho.
Fonte:
Israa Nasir – Terapaeuta e Fundadora da WellGuide/Comunidade digital para educação e conscientização em saúde mental.
Época Negócios – Futuro do trabalho.
Mundiblue – Silânia Costa.